terça-feira, 27 de outubro de 2026

Michelle Bolsonaro: a mulher que subestimaram e que conquistou seu espaço na política.

 


A trajetória de Michelle Bolsonaro na política revela uma contradição dentro do grupo político que ela ajudou a fortalecer: enquanto trabalhava para aproximar mulheres do Partido Liberal (PL) e incentivava sua participação nos espaços de poder, sua própria capacidade política foi questionada por integrantes da família Bolsonaro. Esse episódio levanta uma reflexão importante sobre o machismo na política e sobre as oportunidades que podem ser desperdiçadas quando mulheres são tratadas como coadjuvantes, mesmo depois de demonstrarem capacidade de mobilização e liderança. Afinal, em um país onde as mulheres representam a maioria do eleitorado, ignorar sua força política pode ser um erro estratégico.

Em 24 de junho de 2026, Michelle publicou um vídeo relatando ter sido desrespeitada e humilhada por Flávio Bolsonaro durante uma conversa telefônica. Segundo ela, o senador teria dito que seria melhor que ficasse fora das decisões partidárias porque havia chegado recentemente à política e não entendia do assunto. O episódio expôs uma disputa familiar, mas também levantou questionamentos sobre o reconhecimento da atuação de Michelle dentro do próprio grupo. À frente do PL Mulher, ela percorreu diferentes regiões do país, incentivou a filiação de mulheres e estimulou a participação feminina nas eleições. Seu trabalho contribuiu para ampliar sua visibilidade e construir uma rede de apoiadoras. Embora os resultados dessa mobilização não possam ser atribuídos exclusivamente a ela, sua atuação demonstrou que havia construído um espaço político próprio, para além da condição de esposa do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A importância desse trabalho se torna ainda mais evidente quando observamos os dados do Tribunal Superior Eleitoral. Nas eleições de 2026, as mulheres representam 52,84% do eleitorado brasileiro, somando aproximadamente 83,9 milhões de eleitoras. Isso significa que mais da metade das pessoas aptas a votar no país são mulheres. Portanto, conquistar a confiança desse público não deveria ser tratado como um detalhe nas estratégias partidárias. A presença feminina pode influenciar os rumos de uma eleição, e incentivar mulheres a participar da política é importante tanto para ampliar a representatividade quanto para fortalecer a democracia. Nesse contexto, Michelle poderia ter sido considerada uma alternativa para a disputa presidencial, pois já possuía visibilidade nacional, experiência na mobilização de mulheres e uma base política construída durante sua atuação no PL. Sua escolha não garantiria uma vitória, mas poderia ter apresentado ao eleitorado uma candidatura com características diferentes das de Flávio Bolsonaro. Por isso, é legítimo questionar se a família Bolsonaro desperdiçou uma oportunidade ao não reconhecer plenamente o potencial político de Michelle. Não é possível afirmar que essa decisão, isoladamente, tenha determinado o resultado eleitoral, mas é possível discutir se a escolha de outro nome teria ampliado as possibilidades do grupo.

Enquanto essas disputas aconteciam, Michelle também demonstrava que não pretendia permanecer em uma posição secundária. Em 4 de outubro de 2026, foi eleita senadora pelo Distrito Federal, com 938.496 votos, equivalentes a 29,05% dos votos válidos. O resultado representou uma conquista expressiva em sua trajetória, garantindo-lhe um mandato eletivo próprio, com início previsto para fevereiro de 2027. Sua eleição reforça a importância de avaliar sua atuação política para além dos conflitos familiares e do sobrenome que carrega. Michelle conquistou nas urnas um espaço institucional que lhe permitirá participar diretamente das decisões legislativas do país. Isso não significa que suas ideias devam estar livres de críticas, pois qualquer representante eleita precisa ser avaliada por suas propostas, decisões e resultados. Entretanto, questionar suas posições é diferente de desconsiderar sua inteligência ou presumir que não tem capacidade para compreender a política. Uma mulher não precisa concordar com todos os integrantes de seu grupo para demonstrar competência, assim como não deve ser considerada capaz apenas quando suas decisões favorecem os interesses de homens que ocupam posições de poder.

A trajetória de Michelle Bolsonaro deixa uma reflexão que ultrapassa as disputas internas do PL. De que adianta incentivar mulheres a se filiarem a partidos, participarem de campanhas e ocuparem espaços políticos se sua capacidade passa a ser questionada quando demonstram autonomia? A participação feminina não pode servir apenas para ampliar o número de eleitoras ou fortalecer candidaturas masculinas. Ela precisa garantir às mulheres condições reais de decidir, liderar e construir seus próprios caminhos. A eleição de Michelle para o Senado não prova que ela venceria uma disputa presidencial, mas demonstra que sua força política merecia ser considerada com seriedade. Talvez o maior erro de seus adversários dentro do próprio grupo tenha sido confundir sua posição familiar com os limites de sua capacidade. Em uma democracia na qual as mulheres são maioria entre os eleitores, subestimar uma liderança feminina pode significar deixar de reconhecer não apenas a força de uma mulher, mas também uma parcela decisiva da sociedade. Agora, Michelle terá a oportunidade de demonstrar o que fará com o mandato conquistado. E a sociedade terá o direito de cobrar resultados, sem que sua inteligência e sua capacidade sejam diminuídas por ser mulher.



A Metrópoles usa o termo “direita”, mas o mais adequado, nesse caso, seria “brigas da família Bolsonaro”. Sabemos que o bolsonarismo não representa a direita, e confundir os dois é ignorar a diversidade de ideias e correntes políticas que existem nesse campo ideológico.




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