sexta-feira, 6 de março de 2015

Artigo - O mundo fantástico dos sonhos e o surgimento do mito

Por Joás de Jesus Ribeiro

O mito ao contrário do que se pensava não foi inventado e nem criado como chega acontecer com as fabulas, mas ele é a manifestação daquilo que ocorre no período geralmente noturno, ou seja, nos sonhos. Essa definição é apresentada pela psicanálise, isso não descarta a definição filosófica de mito como representação do mundo, a psicanálise veio elucidar qual o processo que participa dessa representação. Na obra de Joseph Campbell, o herói de mil faces, a demonstração gira em torno da visão clinica que o mito vem se manifestar. É do inconsciente que os desejos aparecem sem uma restrição ou ate pudor, um mundo onde é possível realizar qualquer coisa e satisfazer os desejos. Pode-se dizer que são onde o mito nasce de fato e que logo após o sono, será no estado de vigília que eles são narrados e pensados ou apenas venerado como possivelmente ocorreu e ocorre com civilizações primitivas que chegam ate considerar um outro mundo e vida além desta. Foi do mundo desconhecido do sonho que as religiões se fundamentaram mais tarde nos hinos e cânticos de louvores aos deuses ou Deus, assim como a elaboração das suas escrituras sagradas. Os poetas e profetas deixam devidos créditos aos sonhos que são considerados revelações divinas, com esse significado o homem pôde fundamentar a sua crença, moral e costumes dando forma e face para a sua cultura. É diante do sonho que o homem considera possível a relação direta com o sagrado e onde os deuses ou Deus podem falar com ele e lhe entregar a mensagem a sua tribo ou aos povos, não é de se ignorar que ate hoje existem seitas ou religiões que veneram o sonho como fator crucial para uma revelação. Mesmo com o mapeamento do cérebro pela neurociência e a descoberta dos mecanismos que provocam o sonho ele ainda tem se demonstrado um mistério do inconsciente estudado pela psicanálise.

Palavra-chave: mito, manifestação, sonhos, psicanálise e sagrado.
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1 Introdução:
Para a psicanálise são dos sonhos que os mitos têm sua origem, é nele que o mundo fantástico é criado ou descoberto, então ela se preocupa em desvendar o que vem sendo mostrado pelos sonhos e apresentam a sua interpretação que têm como objetivo ajudar o paciente a superar determinada dificuldade que prejudica o seu cotidiano. O sonho revela as necessidades que o inconsciente têm que é reprimido ate mesmo por uma postura e conduta do paciente. O desejo aparece manifestado nos sonhos, por isso é comum ao empregado que durante o dia é humilhado pelo patrão ou chefe durante a noite sonhar discutido com ele quando não o lança pela janela do andar mais alto, a casos que um ente querido fala como se nada tivesse acontecido, ele torna a sua rotina e conversa no sonho, a rotina em uma atemporalidade sem um espaço físico definido. Talvez aconteça isso devido a saudade que a pessoa têm do ente querido e possui o desejo de vê-lo novamente. O medo também faz parte dos sonhos construídos pelo inconsciente, é comum o relato de pessoas caindo de um edifício ou sendo perseguidos por uma fera. A censura e o desprezo por algo podem muitas vezes surgir como desejo no inconsciente, sonhar em comer um alimento muito calórico quando se está de regime, assim como obter o ato sexual em sonho são fatores que revelam deficiência ou necessidades físicas do corpo, desde um obeso ao atleta e um compulsivo sexual ao religioso e castidade. Eles podem sonhar com aquilo que expressa os desejos mais íntimos para aqueles que ignoram no estado de vigília, ate o desejo explicito que se busca um domínio. Pois é o mundo de realizações, previsões, revelações e mensagens confusas, o qual forma os mitos como se conhecem, será nele a construção de uma moral e regras que através dessas experiências “inefáveis” toda uma sociedade e cultura serão fundamentadas, sejam guiados pelos poetas ou profetas os mitos tiveram e tem grande importância.

O inconsciente envia toda espécie de fantasias, seres estranhos, terrores e imagens ilusórias – seja por meio dos sonhos, em plena luz do dia ou nos estados de demência; pois o reino humano abarca, por baixo do solo da pequena habitação, comparativa corriqueira, que denominamos consciência, insuspeita caverna de Aladim. Nelas há não apenas um tesouro, mas também perigosos gênios: as forças psicológicas inconvenientes ou objetos de nossa resistência, que não pensamos em integrar – ou não nos atrevemos a fazê-lo – à nossa vida. Essa forças podem permanecer insuspeitadas ou, por outro lado, alguma palavra casual, o odor de uma paisagem, o sabor de uma xícara de chá ou algo que vemos de relance pode tocar uma mola mágica, e eis que perigosos mensageiros começam a aparecer no cérebro. Esses mensageiros são perigosos porque ameaçam as bases seguras sobre nas quais construímos nosso próprio ser ou família. Mas eles são, da mesma forma diabolicamente fascinantes, pois trazem consigo chaves que abrem portas para todo o domínio da aventura, a um só tempo desejada e temida, da descoberta do eu. Destruição do mundo que construímos e no qual vivemos, assim como nossa própria destruição dentro dele; mas, em seguida, uma maravilhosa reconstrução, de uma vida mais segura, límpida, ampla e completamente humana – eis o encanto, a promessa e o terror desses perturbadores visitantes noturnos, vindos do reino mitológico que carregamos dentro de nós.
(CAMPBELL,1992)

2  O fenômeno dos sonhos
Diante desse fenômeno, sonho, o homem primitivo não soube pormenor explicar o que era aquilo, o misterioso visitante das vezes que dormia. Foi nessa situação de contemplação de algo desconhecido, talvez com o sonho de caçar os mais perigosos dos animais de seu convívio ou fora dele que surge o resquício de um herói capaz de enfrentar os seus medos e dificuldades. Porventura no seu estado de vigília este sonhador anunciasse o feito de um homem em um mundo fora deste que conquistou a mais temida besta fera já criada pela natureza. Os feitos desse herói passaram de geração a geração sendo narrados em cânticos ou poesias ao redor das fogueiras que guardavam os homens do desconhecido mundo da escuridão afora.

3 O divino e o sonho
A melhor forma de Deus ou deuses entrarem em contato com os homens era através dos sonhos, alguns se revelavam em imagens quase inefáveis, de outro era apenas possível ouvir a sua voz, enquanto uns apareciam através do fogo.  Este último que protegia os homens do desconhecido da escuridão, mas que não permitia que se aproximasse muito se não seriam consumidos, portanto os antigos perceberam que o fogo estava diretamente ligado com o sagrado era com ele que os sacrifícios a Deus ou deuses deveriam ser feito. O cordeiro era imolado como sacrifício a Deus, o boi era sacrificado para libertação dos espíritos dos mortos, assim como aves, répteis e outros animais que eram oferecidos nos ritos de passagem, todos esses sacrifícios oferecidos no fogo que consumiria e levaria para Deus e deuses, que receberiam o sacrifício como cheiro suave em suas narinas seguido de adoração e louvores que era o que mais Deus e deuses se agradavam. Com o dever comprido a caça seria abençoada, a tribo teria guerreiros fortes para protegê-la, mais tarde com o aparecimento das cidades tais crenças permaneceriam preservadas nos mitos e ritos.

Quando passamos, tendo essa imagem em mente, à consideração dos numerosos rituais estranhos das tribos primitivas e das grandes civilizações do passado, cujo relato chega até nós, torna-se claro que o propósito e o efeito real desses rituais consistia em levar as pessoas a cruzarem difíceis limiares de transformação que requerem uma mudança dos padrões, não apenas da vida consciente, como da inconsciente. Os chamados ritos [ou rituais] de passagem, que ocupam um lugar tão proeminente na vida de uma sociedade primitiva (cerimônias de nascimento, de atribuição de nome, de puberdade, casamento, de morte, etc), têm como característica a pratica de exercício formais de rompimento normalmente bastante rigorosos, por meio dos quais a mente é afastada de maneira radical das atitudes, vínculos e padrões de vida típicos de estágios que ficou para trás. Segue-se a esses exercícios um intervalo de isolamento mais ou menos prolongado, durante o qual são realizados rituais destinados az apresentar, ao aventureiro da vida, as formas e sentimentos apropriados à sua nova condição, de maneira que, quando finalmente tiver chegado o momento do seu retorno ao mundo normal, o iniciado esteja tão bem como se tivesse renascido.
(CAMPBELL,1992)

4 Poetas e profetas
Os mitos estão diretamente legados com o sagrado, pois coube aos poetas e profetas por intermédio de uma inspiração divina passar a mensagem entregue por Deus ou deuses. Essas mensagens provem muitas vezes dos sonhos, por isso Daniel um profeta da tradição judaico-cristã recebia suas profecias ou visão através dos sonhos. Com figuras e imagens que revelam situações que normalmente as pessoas podem sonhar, principalmente um homem que viveu em um período de crise cultural do seu povo. Há também varias historias de monges budistas e hindus que sonham com figuras sagradas que lhas entregam mensagens que se tornaram importantes para as suas religiões. Pouco se conhece sobre a religião dos gregos mais o que se sabe é que os poetas recebiam das musas a inspiração para narrarem do arquétipo aos feitos heróicos de personagens lendários que por sua vez deixam, exemplos para as gerações que surgiram depois dos feitos. O sonho é o maior responsável pela existência e crenças nessas revelações divinas, pode-se considerar o sonho o principal fundador de varias religiões, e o contribuídor das sagradas escrituras de diversos povos. O ethos se manifestou junto com os mitos para formação de excelentes membros das comunidades primitivas, o mito busca passar para as gerações futuras a forma ou postura e conduta de um individuo. O sagrado é constituído de todos os conjuntos de valores que uma determinada sociedade pode atribuir a uma crença, é ele que aponta o que pode ou não ser considerado crucial para, por exemplo, uma religião. Geralmente o sagrado possui seus representantes entre os homens que são os sacerdotes, somente eles adotam todo um sistema de costumes e crenças que os separa dos demais membros da comunidade, só eles escutam a voz de Deus ou deuses e possui a capacidade de passar ao povo o necessário. Os próprios membros sabem da importância de ter um líder religioso que realize tarefas que um individuo comum não teria tempo para fazer.

Hoje com o avanço da neurociência, algumas proposições do pai da psicanálise foram corroboradas, enquanto as atribuições sobrenaturais vem sendo a cada dia questionadas, ou seja, o mapeamento do cérebro demonstrou que mesmo com dormindo o cérebro continua com sua atividade normal. Segundo pesquisas da área o sonho não é algo próprio dos seres humanos, mas outras espécies de animais também sonham, esse momento geralmente noturno se manifesta com elementos recentes, ou seja, com aquilo que acontece durante o dia.

Um cão pode sonhar passeando, ou brincando com um osso, isso pode representar o seu desejo em realizar essas tarefas que antes fez com seu dono ou sozinho durante o dia. Logo esse fator retira dos humanos a legitimidade de que só eles “sabem” sonhar. Mesmo com as criticas que a psicanálise vem sofrendo no próprio meio acadêmico boa parte de suas teses ainda são fortes e essenciais para a compreensão da mente humana, não no sentido de demonstrar o mecanismo como faz a neurociência, mas como identificar os códigos e significados que os sonhos trazem  para o paciente talvez as preocupações ou questões que existiam no século XX sobre a mente, voltado ao mecanismo tenha sido ou esteja sendo respondido pela ciência. Mas existem perguntas de dimensões filosóficas que tanto a psicanálise como a neurociência buscam também repostas. Desde o que é a consciência a questões de relação entre a mente e corpo. Atualmente os projetos de pesquisas cientificas apresentam a energia escura como solução de problemas para a compreensão do sistema cerebral. Isso trouxe um forte dialogo entre filosofia e ciência, a psicanálise também pode tirar algumas duvidas acerca do funcionamento do cérebro quando o individuo está dominado e criando o mundo fantástico no seu inconsciente.

5 Considerações finais
Mesmo com a ciência definido o processo ou mecanismo do sonho ainda existe toda uma atribuição mística, o que faz parte de uma cultura e crenças dos povos, mesmo vivendo diante de tecnologias, a tradição que eleva os sonhos ao patamar de sagrado é bem forte, a ponto de escritores religiosos explorarem o assunto, para os seus fieis tanto religiões proféticas como o judaísmo, cristianismo e islamismo quanto as espiritualistas e sapienciais do oriente possui suas posturas doutrinarias diante dos sonhos, ou seja, o sonho está diretamente manifestado no sagrado. Aonde tem o sagrado existe o mito como aquele propulsor de valores e condutas morais para os indivíduos. Nem todos de inicial estão “preparados” para enfrentar algumas proposições que a psicanálise pode apresentar no que cerne a sua linha de estudo e pesquisa, por isso durante muito tempo alguns volumes das Obras de Freud não eram mais lidos devido o incomodo e angustia que causavam ao demonstrar o homem como aquele onde a sexualidade está presente todo o tempo. Diga-se de passagem, o sexo é algo que desperta curiosidade, mas por causa da postura e censura cultural, saber de determinados desejos provoca repugnarão daqueles que têm contato com a obra, é próprio do juízo de valor tradicional. Entender o sonho é desvendar o inconsciente de um individuo, é se expor ao psicanalista, que de forma ética não terá postura preconceituosa ou repressora, mas buscará ajudar o paciente em suas dificuldades. Talvez ajude até mesmo superar determinadas patologias que afetam a relação social do individuo como, por exemplo, as psicopatologias, a depressão e outras doenças que afetam a vida e a mente daqueles buscam ajuda com essa ciência que mesmo sendo questionada trouxe grandes contribuições.

                   
BIBLIOGRAFIAS
Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Editora Cultrix, São Paulo. Ano 1996.
Szklarz, Eduardo. Por que sonhamos? Das velhas teorias psicanalíticas à moderna neurociência; que a ciência sabe sobre esse curioso fenômeno? Super Interessante, São Paulo; edição 240° - A , p 57, junho- 2007.